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MULTICULTURALIDADE

Ivone Mendes Richter*

 

 

Porque o professor de Arte precisa trazer para sua sala de aula a preocupação com as diferenças culturais?

Em uma sala de aula, especialmente na escola pública se inter-relacionam indivíduos de diferentes grupos culturais, que terão sempre que lidar com outros indivíduos também de diferentes culturas e subculturas. Sendo assim, propor atividades, como identificar as formas de Arte que importam em uma variedade de culturas e subculturas, seria uma estratégia que poderia levar a uma atitude multiculturalista.

O que precisamos é manter uma atmosfera investigadora na sala de aula acerca das culturas compartilhadas pelos alunos, tendo em vista que cada um de nós participa no exercício da vida cotidiana de mais de um grupo cultural. Ser um professor multiculturalista é ser um professor que procura questionar os valores e os preconceitos.

Multiculturalidade não é apenas fazer cocar no "Dia do Índio", nem tampouco fazer ovos de Páscoa ucranianos ou dobraduras japonesas ou qualquer outra atividade clichê de outra cultura.

Educação Multiculturalista permite ao aluno lidar com a diferença de modo positivo na Arte e na Vida.

Arte do cotidiano
Manifestações sobre a arte pós-moderna também guiaram os diálogos no primeiro módulo do curso. De acordo com Ana Mae, o pós-modernismo considera aspectos pessoais, como afeto, valores e emoções e as coloca no leque das coisas cotidianas - os lugares por onde andamos, estudamos e trabalhamos.

Na sala de aula, isso se traduz em mostrar aos alunos que o universo cultural não faz juízo de valor e é constituído de diferentes fazeres que se relacionam. "O aluno deve ser sempre o fio condutor do trabalho, seus valores, sua família, sua origem, sua habitação. O professor deve se dispor a dialogar com o aluno percebendo suas influências culturais individuais", explica Ana Mae.

Foi o que fez a arte-educadora Ivone Mendes Richter, professora da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Em 2001, ela desenvolveu com o professor Hiran Nunes o trabalho "Propondo uma performance", com as duas turmas de 5ª série da Escola Municipal de Ensino Básico Aracy Barreto Saccis, em Santa Maria (RS).

Nilza de Melo Fagundes

Nilza de Melo Fagundes mostra aos alunos como trabalhar com tear: multiplicação cultural

O objetivo era descobrir as origens étnicas presentes na escola e relacioná-las com as mulheres da comunidade que têm algum tipo de habilidade especial. "Algo que a pessoa fazia, diferente do simples cotidiano. Uma mesa de jantar bem posta, um canto da casa arrumado com esmero, por exemplo", explica Ivone. Chegou-se a cinco origens e fazeres: portuguesa e espanhola com a arte da tapeçaria; alemã com bordado e pintura, indígena pelo trabalho com ervas medicinais, africana pelo trabalho com crochê e japonesa pela arte do origami.

"O despertar estético acontece na família, por meio dos gostos e hábitos dos pais, o jeito que o vaso de flor é colocado sobre a mesa, a toalha bordada em cima da televisão, a coleção de canecas na estante. A escola desconsiderava isso. Apresentava Van Gogh, Renoir e Cézane como as únicas formas de arte", conta Ivone.

Em seguida, Nunes apresentou aos alunos obras de artistas femininas contemporâneas que enfatizam os fazeres especiais do cotidiano. "Assim, valorizamos o veio familiar da estética", conta Ivone. Algumas mulheres levaram à escola seus materiais de trabalho. Nilza de Melo Fagundes, de origem portuguesa e espanhola, apresentou seu tear e as lãs de ovelha. Contou sobre sua ligação com o campo, os animais e mostrou como fiava a lã. Em pequenos teares, as crianças fizerem peças de tecelagem.

Exposição montada

Parte da exposição montada pelos alunos: mergulho na arte

Em casa, cada aluno bateu três fotos de objetos que tinham para eles valor afetivo - bicho de pelúcia, pôster, aparelho de som, tinha de tudo. Depois, essas fotos foram analisadas em grupo. De casa, os alunos também trouxeram toalhas bordadas das mães e, na escola, criaram as próprias, de papel recortado. No prato de cerâmica, pintaram coisas de que suas mães mais gostavam. Tudo isso ajudou a conhecer a estética de cada um e deu origem a uma exposição dos trabalhos, pensada e montada pelos alunos.

Ivone trabalha dessa forma porque não acredita na simples releitura de obras de arte. Para ela, a tarefa de interpretar a obra e o artista impede que a criança mergulhe nela. "Arte não é só conhecer a obra, é envolvimento emocional e estético. É mais válido penetrar numa obra e assimilá-la uma única vez do que ver uma série de slides, nomes e conceitos", argumenta. Esse olhar com profundidade, segundo Ivone, é facilitado quando a arte tem como referência o cotidiano.

Atualização
Ensinar arte dessa forma implica em conhecer um mundo que não pára de se transformar e de crescer. Atualizar-se por meio de grupos de estudo é um bom caminho, segundo Ana Mae Barbosa. Um filme, uma peça de teatro, uma exposição ou um concerto, debatidos em conjunto com outros colegas, dão origem a um conhecimento socialmente construído. Isso facilita a escolha dos conteúdos para a sala de aula e ajuda a aproximar a arte do cotidiano dos alunos.

Ivone acrescenta que considera importante que o professor de Artes tenha feito arte em algum momento da vida. "Isso lhe dará o prazer estético que ele precisa transmitir aos alunos".